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18 de Agosto de 2022

Reforma trabalhista: honorários de sucumbência e gratuidade da justiça

Elias Evangelista, Bacharel em Direito
Publicado por Elias Evangelista
há 5 anos

A reforma trabalhista traz profundas alterações nas regras dos honorários de sucumbência e da gratuidade da justiça.

Com a reforma, nasce a possibilidade de condenação em honorários de sucumbência trabalhista. Para esta condenação não se faz necessário assistência de advogado de sindicato.

Contudo, amplia-se o controle para concessão da assistência judiciária e cria-se regra que certamente será muito discutida nos tribunais.

O reflexo dessas alterações será percebido muito em breve, como veremos a seguir.

Assim, vamos rever as súmulas do TST que regulam atualmente o tema, para depois analisar os pontos da reforma trabalhista.

Concessão da gratuidade da justiça e o TST

Até o momento a súmula nº 463 do TST regulamenta a exigência para concessão da gratuidade da justiça.

Para tanto, traz dois pontos, um em relação a pessoas físicas ou outra a pessoas jurídicas:

Para pessoas físicas:

Passo #1: basta a declaração de hipossuficiência econômica firmada pela parte ou por seu advogado.

Passo #2: a procuração do advogado deve ter poderes específicos para o pedido de assistência judiciária. Essa interpretação segue o art. 105 do CPC de 2015.

Para pessoas jurídicas:

Passo #único. Não basta a simples declaração, será necessário prova cabal de sua impossibilidade econômica.

Neste sentido, interpretando-se a OJ 304 da SDBI-1 (30/06/2017), temos a súmula 463 do TST:

reforma trabalhista

Essa interpretação sobre concessão da gratuidade da justiça no âmbito trabalhista terá vigência até novembro de 2017. A partir daí, entra em vigor as regras da reforma trabalhista.

De outro lado, o colendo TST também tem entendimento firmado que a contratação de advogado particular não impede a concessão da gratuidade da justiça.

Desse modo, para possibilitar o direito de ação, a CF88, estabeleceu no Art. 5º, o acesso à Justiça. O preceito está disposto no inciso, XXXV, in verbis:

“A lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito.”

Por fim, percebemos que o livre acesso ao poder judiciário, no âmbito trabalhista, vem, aparentemente, seguindo como delimita o texto constitucional.

Gratuidade da justiça e a reforma trabalhista

A reforma trabalhista cria nova regra para interpretação de acesso ao judiciário. O faz ao incluir o § 3o no art. 790 da CLT.

Assim, a lei faculta ao juiz conceder o benefício da justiça gratuita àqueles que perceberem salário igual ou inferior a 40% do limite máximo dos benefícios do RGPS.

Nesse sentido:

reforma trabalhista

Em suma, o teto da previdência hoje é de R$5.531,31 e foi regulamentado pela portaria nº 8 de 13/01/2017 do Ministério do Trabalho.

Logo, para aqueles com renda de até R$2.213,72 seria uma faculdade ao juiz conceder ou não os benefícios da gratuidade da justiça.

Com o devido respeito ao legislador, estabelecer um critério fixo para permitir o benefício da gratuidade da justiça ofende o livre acesso ao judiciário.

O próprio plenário do STF tem posição diversa.

Em dezembro de 2015, o STF retratou que o artigo 12 da Lei 1.060/1950, foi recepcionado pela Constituição da República.

E aqui, a única regra é a avalição da possibilidade de pagamento das custas “desde que possa fazê-lo, sem prejuízo do sustento próprio ou da família”.

A decisão foi tomada no julgamento de três processos. Nos Recursos Extraordinários nº 249003 e nº 249277 e no agravo regimental no RE 284729.

Em síntese, o C. STF permite a avaliação do caso concreto sem critérios objetivos ou tabelas de valores.

A criação desta regra, engessada, ofende o livre acesso ao judiciário (CF88, inciso, XXXV, Art. 5º).

Ainda, num país regionalmente muito diferente, R$2.213,72 não tem o mesmo poder de manutenção familiar se comparar a uma cidade da Paraíba e cidade São Paulo.

Nesse mesmo sentido, observa Boaventura de Sousa Santos:

reforma trabalhista

Por fim, o direito de acesso à justiça é o direito à ordem jurídica justa, como ensina Kazuo Watanabe.

E essa garantia passa pela remoção e obstáculos que se contraponham ao acesso à justiça.

Por fim, não me parece a melhor solução fixar um critério objetivo.

Vale lembrar que o juiz trabalhista já possui instrumentos processuais que lhe permitem avaliar a hipossuficiência das partes para concessão ou não da benesse.

Honorários de sucumbência segundo o TST

Predomina na jurisprudência nacional o entendimento que a concessão dos honorários advocatícios sucumbenciais na Justiça do Trabalho é indevida em face do princípio do jus postulandi da parte, consubstanciado no artigo 791 da CLT.

O art. 791 determina que:

“os empregados e os empregadores poderão reclamar pessoalmente perante a Justiça do Trabalho e acompanhar as suas reclamações até o final”.

Contudo, os honorários de sucumbências foram interpretados de forma equivocada e restritiva pela Lei 5.584/70, no tópico da Assistência Judiciária. Estabelece o art. 14, § 1º que:

“a assistência é devida a todo aquele que perceber salário igual ou inferior ao dobro do mínimo legal, ficando assegurado igual benefício ao trabalhador de maior salário, uma vez provado que sua situação econômica não lhe permite demandar, sem prejuízo do sustento próprio ou da família”.

Esse entendimento foi adotado nas súmulas 219 e 329 do C. TST.

Todavia não há nesses dispositivos, como de fato não poderia haver, qualquer determinação no sentido de que na Justiça do Trabalho os honorários advocatícios só são devidos quando houver assistência do sindicato.

O que está dito é, unicamente, que a assistência judiciária será prestada pelo sindicato. Nada mais.

reforma trabalhista

Contudo o pleno do TST tem interpretação diversa.

Assim, a condenação em honorários sucumbências pressupõe a assistência de advogado de sindicato e a percepção de salário igual ou inferior ao mínimo.

Há também regras para ação rescisória e casos em que a fazenda pública figurar no processo, nesse sentido:

reforma trabalhista

Assim, os advogados vem travando uma batalha ao longo do tempo para concessão de honorários de sucumbência em ações trabalhistas.

Contudo, sem sucesso.

A reforma trabalhista modifica esta realidade e traz aqui a possibilidade de condenação em honorários de sucumbência.

Honorários de sucumbência e a reforma trabalhista

A reforma trabalhista introduziu o artigo 791-A na CLT permitindo a concessão de honorários de sucumbência, vejamos:

reforma trabalhista

A inovação da reforma trabalhista representa o tratamento isonômico aos advogados que militam na seara trabalhista e outros advogados.

A única ressalva aqui se faz em relação a mínimo/máximo legal delimitado no art. 791-A, em 5% à 15%.

Isso porque o próprio código de processo civil atual determina que esta variação é 10% à 20% (art. 85 do NCPC). Ou seja, não há motivos para tratar advogados trabalhista de modo diverso.

Considera-se sim um grande avanço, contudo deveria o legislador ter mantido a isonomia também quanto ao valor devido a título de honorários sucumbenciais.

Em defesa da ética processual

A parte ao buscar suas pretensões junto ao judiciário, na maioria das situações espera vê-las asseguradas, no entanto, por vezes isto se torna impossível por diversos fatores.

Todavia, é crescente a ideia de sujeitos que atuam no processo e praticam atos que violam os deveres processuais configurando prática de litigância de má-fé.

Logo, buscando coibir as ações que violam os deveres processuais, a reforma introduziu os artigos 793-A e 793-B na CLT, vejamos:

reforma trabalhista

Do mesmo modo, a inclusão da regra permissiva de condenação em honorários sucumbenciais também aumentará a responsabilidade do advogado.

Isso porque pedidos além daqueles que de direito ou sem qualquer relação com o processo, poderão trazer como consequência a condenação em honorários sucumbenciais recíprocos, ou ainda poderá o autor ser vencedor da ação mas decair da maior parte do pedido.

Assim, o risco de condenação em honorários sucumbenciais ou sucumbência recíproca, somado a maior risco de condenação por práticas de litigância e má-fé, certamente exigirá mais de nós, advogados. Mais cautela, retidão, ética e responsabilidade processual na tutela dos interesse de nossos representados.

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11 Comentários

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Bela porcaria, isso sim. Só que ninguém da advocacia percebeu ainda, e quando perceberem, já era.
Direito do trabalho, meus nobres colegas, é de uma realidade e de um substrato fático e social completamente diversos do direito civil ao qual os defensores de honorários na esfera trabalhista se reportam.

Não há, para começo de conversa, igualdade de partes. Temos de um lado o poder econômico do capital, esmagador. De outro, sujeitos subservientes, completamente dependentes do sistema capitalista. Precisam trabalhar para comer, e para isso se sujeitam a qualquer coisa, praticamente.

O que vai acontecer, na prática, e isso foi muito bem concatenado pelos maquiavélicos articuladores da reforma trabalhista, é o amordaçamento dos trabalhadores.

Qual é, em sã consciência, o trabalhador que vai buscar na Justiça algum direito sabendo que pode perder e daí ter que pagar pro patrão adverso?

E não me venham com aquele papinho: "ahh, então se não tem certeza não entre com a ação...", "ahh, vai acabar aqueles pedidos sem fundamento..." ou então "ahh, o advogado fica pescando direitos... vai acabar com isso". Nada disso!

Vai acontecer, e digo, para a ENORME MAIORIA DOS CASOS, do trabalhador ganhar alguns dos pedidos, o que é normal, fruto do reiterado descumprimento de leis e acordos pelos entes patronais. Porém, mesmo assim, o empregado vai ao final PAGAR honorários pro advogado do patrão, já bem (suficientemente) remunerado, já que é uma advocacia de partido. É justo? Sinceramente não acho. É um desestímulo à busca da jurisdição para resolução dos problemas, e assim, por outro viés, um GRANDE ESTÍMULO para entres patronais desonestos (sim, existem e muitos) continuarem, ou até ampliarem suas falcatruas, agora sabendo que se o trabalhador, por algum motivo não conseguir fazer prova (o que é comum, e completamente diferente de um pedido "aventureiro") vai perder e lhe pagar honorários, o que fatalmente desestimulará o ingresso e uma ação, mesmo o empregado sabendo que tem razão em muita coisa. continuar lendo

Não concordo, atualmente cerca de 80% da economia provém das pequenas e médias empresas, que não possuem esse poder esmagador do capital como você fala.

Você realmente acha que uma pequena empresa com 3 ou 4 funcionários consegue lidar com uma ação trabalhista de 30/40 ou 100 mil reais? Isso é falência na certa, ainda mais que até o presente momento lidamos com muitos funcionários pedindo "tudo que dá" e sempre acaba que o micro empresário não consegue ter registro de tudo.

Como pequeno empresário, honesto, cumpridor dos meus deveres e obrigações, sou totalmente a favor da reforma trabalhista. continuar lendo

Concordo plenamente! A estatística contumácia que se vê junto aos Tribunais do Trabalho é que a grande maioria da ações trabalhistas não são propostas por "pedidos aventureiros", ja que de 10 ações, 9 o trabalhador tem êxito em algum dos pedidos que fez!
Quando não ganha os demais pedidos é porque, infelizmente, não conseguiu provas testemunhais (o que muitas vezes é difícil em razão das únicas e possíveis testemunhas estarem trabalhando para o mesmo empregador e temerem sua demissão caso sirvam como testemunha).
A reforma trabalhista foi totalmente capitalista com o único viés de impedir o acesso ao judiciário porque muitos empregados temerão os honorários sucumbenciais já que poderão, com isso, sair devendo ao invés de receber algum crédito.
A reforma trabalhista foi feita para os MAUS PAGADORES que agora poderão utilizar subterfúgios para explorarem cada vez mais a mão de obra alheia para enriquecimento próprio.
Dividir os lucros ninguém quer né! continuar lendo

Parabéns pela brilhante analise do tema, acredito que tenha sido muito frutífero para muitos. Embora percebi abaixo discordância, por parte de uma empresária ( para minha surpresa) mais veja só a incoerência da empresária, " nos micro empresários não conseguimos cumprir tudo...." Olha só se não tiver competência para abrir um negocio e seguir as leis, nem o faça, por isso que o Brasil esta na situação que esta, ai depois o empregado é o culpado!! continuar lendo

ótimo! continuar lendo

Ao meu ver a reforma trabalhista em alguns aspectos, necessariamente, com relação a condenação do trabalhador a honorários sucumbenciais e as custas processuais no caso de perda do direito pleiteado e de sumcumbência recíproca, neste sentido ao meu ver esta lei veio para prejudicar o direito constitucional do trabalhador ao acesso a Justiça. Percebe-se que esta lei neste sentido veio exclusivamente para amordaçar o trabalhador e prejudicá-lo, haja vista que beneficia os patrões em detrimento da parte hipossuficiente da demanda, e ainda, na minha humilde opinião, isso se traduz em um retrocesso e não avanço, pois que, escraviza o trabalhador em ficar tolhido de buscar aquilo que lhe é de direito. Neste sentido! deixo aqui uma indagação a todos aqueles que atuam na seara trabalhista: Como poderá um trabalhador, desempregado, pleitear uma perícia e caso indeferida ter que pagar por ela?

Nós, como seres pensantes e que demandamos com ética nesta r. Justiça Especial, devemos conclamar a todos atores jurídicos e sociais a sensibilizar para que seja declarada a inconstitucionalidade dos artigos da nova lei que limitam o trabalhador ao acesso à Justiça e assistência jurídica gratuita. Eis, minha opinião. continuar lendo

As Leis são feitas por Deputados Federais e em seguida são encaminhadas aos Senadores. Ora, caros senhores colegas , vcs acham que eles , empresários que são, ruralistas, etc , vão criar leis que os prejudiquem, NUNCA!!!! As bancadas são compostas de donos das capitanias hereditárias que este País continua a ter. E olha que não sou petista.
Foram 296 Deputados Federais e 50 senadores, entre eles Aecio Neves, Ivo Cassol, Ronaldo Caiado, Garibaldi Alves , Martha Suplicy.
Esqueçam estes lamentos e vamos trabalhar com provas inequivocas, incontroversas. Antes que perguntem, faço há 15 anos advocacia para a classe laboral, poucoas vezes fiz para os patrões.
è o que tenho a dizer. continuar lendo

As Leis são feitas por Deputados Federais, e em seguida são encaminhadas aos Senadores. Ora, caros senhores colegas , vcs acham que eles , empresários que são, ruralistas, etc , vão criar leis que os prejudiquem, NUNCA!!!! As bancadas são compostas de donos das capitanias hereditárias que este País continua a ter.
E olha que não sou petista.
Foram 296 Deputados Federais e 50 senadores, entre eles Aecio Neves, Ivo Cassol, Ronaldo Caiado, Garibaldi Alves e Martha Suplicy que votaram a favor da reforma.
Esqueçam estes lamentos e vamos trabalhar com provas inequivocas e incontroversas. Antes que perguntem, faço há 15 anos advocacia para a classe laboral, pouco vezes fiz para os patrões.
É o que tenho a dizer. continuar lendo

A condenaçao em honorarios de sucumbência é valida para os processos distribuidos antes da entrada em vigor da reforma trabalhista? continuar lendo

Tenho 04 processos em Goiânia atuando pela 3ª reclamada todos distribuídos antes da reforma, um foi julgado antes da reforma e três após a reforma, ganhei 9% de honorários sucumbenciais nestes 03, e sem suspensão de cobrança, posto que o reclamante foi vitorioso contra as outras 02 reclamadas. Aqui em SP também tenho visto o mesmo resultado, mas quando se é a primeira ou unica reclamada é bem ganhou e não levou, a não ser que você prove que o reclamante pode pagar, quem sabe achando um processo civel do mesmo onde ele tenha algo a receber . continuar lendo